Plin - Psicologia Infantojuvenil. Site especializado em conteúdo psicológico para crianças e adolescentes

Automutilação em adolescentes: como ajudar?

Automutilação em adolescentes: como ajudar?
por Etiene Macedo

A automutilação é um comportamento crescente entre adolescentes  e acontece entre meninas e meninos. Uma das formas de automutilação é o ato de cortar própria pele com a intenção de aliviar sentimentos referidos como “uma dor emocional muito intensa”.

O ato de se cortar não acontece de forma isolada. Geralmente associa-se a sentimentos como impulsividade, instabilidade, dificuldade para falar sobre os próprios sentimentos, conflitos interpessoais, vergonha, autocrítica exacerbada, sentir-se o “patinho feio” da turma.

Estudos científicos apontam que a motivação para esse comportamento está relacionada à percepção de alguma perda interpessoal e o sentimento de que “as coisas vão acabar mal e eu tenho culpa nisso”. Os adolescentes costumam relatar que antes do episódio sentem medo, raiva, ambivalência entre magoar alguém ou magoar a si mesmos, culpa e um forte sentimento de não pertencimento ou de não ser adequado.

Tais sentimentos são vividos de forma tão intensa, que provocar a dor física é o mecanismo utilizado em busca de alívio. É um mecanismo psicológico complexo para lidar com sentimentos negativos si mesmo e sobre os relacionamentos interpessoais.

Abaixo algumas perguntas e respostas que são corriqueiras sobre esse assunto:

É uma tentativa de chamar a atenção? Na verdade, é um pedido de ajuda. É um sinal de que o adolescente precisa de ajuda para lidar com suas emoções e desenvolver habilidades para expressá-las.

O  adolescente que se automutila está tentando suicídio? O DSM V (Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais) classifica a automutilação como uma autolesão não suicida. Significa que ela não está diretamente associada à tentativa de suicídio, mas, tem estreita relação com outros quadros de sofrimento psicológico e depressões. Estes sim, associados a um conjunto de fatores podem aumentar o risco de suicídio. Por isso, não podemos afirmar que todo adolescente que se automutila está tentando suicídio.

Como identificar os fatores de risco para a automutilação do adolescente? Não existe apenas um comportamento – relatos sobre vivências de bullying onde o adolescente tem poucos recursos para lidar com tais situações; conflitos familiares em que ele refere não pertencer ou não se sentir parte da família associados a relatos recorrentes de tristeza, sentimento de inadequação e solidão, instabilidade emocional,  autodepreciação, culpa estão associados aos riscos para esse comportamento.

O que fazer ao descobrir que o adolescente se automutila? Criar um ambiente acolhedor para esse adolescente é fundamental. Em lugar de repreensões, uma conversa acolhedora é o primeiro passo. Nessa ocasião é importante saber ouvir sem julgamentos e  desenvolver empatia pelos sentimentos descritos. Em seguida, elaborar com o adolescente um plano de emergência. O objetivo é se colocar como uma pessoa de referência a quem o adolescente pode recorrer sempre que se sentir  “invadido” pelos sentimentos negativos.

O adolescente que se automutila deixa pistas? Sinais físicos recorrentes descritos como pequenos arranhões que aumentam de frequência,  uso de moletons mesmo em dias quentes e inapropriados, pedidos constantes de substituição de apontadores e objetos cortantes de uso escolar, além de mudanças bruscas de comportamentos  podem ser indícios de que esse comportamento esteja acontecendo. Família e escola precisam estar atentas.

Adolescentes que se automutilam desejam relações de proximidade e segurança, mas temem profundamente a rejeição e abandono. Algumas vezes, por não saber o que fazer, a família acaba invalidando as emoções que ele relata.  Por isso, é importante permitir que ele fale sobre o assunto. A ajuda profissional nesse momento faz toda a diferença para que a família desenvolva uma relação de ajuda e fortaleça vínculos com esse adolescente em sofrimento.

Se você tem mais dúvidas sobre o assunto, escreva para nós!

Vamos ficar atentos! Um abraço!

Etiene

 

 

Etiene Macedo Psicóloga com mestrado em Psicologia Clínica, doutorado em andamento em Psicologia Clínica (Unb). Especialista em Terapia de Casais e Famílias (PUCGO). Sócia e colunista do Plin.

10 comentários para “Automutilação em adolescentes: como ajudar?”

  1. Janaina Borges disse:

    Excelente, Etiene!

    1. Etiene Macedo disse:

      Janaína, muito obrigada pelo feedback!

      Um beijo!
      Etiene e Flávia

  2. Patricia disse:

    Você poderia indicar bibliografia a respeito deste tema?
    Obrigada.

    1. Etiene Macedo disse:

      Patricia como vai? Desculpe a demora pela resposta!
      A bibliografia depende do seu interesse. Você pode ler textos sobre depressão na adolescência que te ajudam a entender esse como esse comportamento está associado a processos depressivos no adolescente. Você pode buscar por conflitos internalizantes na adolescência, escarificações e cutting também. Seguem 2 textos que podem ser úteis:
      – “Autocriticismo, vergonha interna e dissociação: a sua contribuição para a patoplastia do auto-dano em adolescentes (Paula Castilho e colaboradores), 2010, 52, Psychologia”
      – “Automutilação`: características clínicas e comparação com pacientes com transtorno obssessivo-compulsivo (Jackeline Suzie Giusti) – se você buscar na bibliografia dessa tese vai encontrar muitos textos também.

      Forte abraço,

      Etiene e Flávia

  3. Flavia Alvarenga Antunes Cintra do Prado disse:

    Boa tarde , sou orientadora educacional em uma escola , e estou com uma aluna do ensino médio com problemas de automutilação , é uma adolescente de 15 anos com problemas de rejeição , muito solitária, não aceita ajuda nossa, ajuda do psiquiatra , terapia, nada , como ajuda-lá ? obrigada . Flávia

    1. Etiene Macedo disse:

      Se você consegue ter momentos de conversas com essa adolescente já é de grande ajuda. Um passo importante é não julgar ou reprovar esse comportamento, mas demonstrar interesse sincero em compreender o que se passa com a adolescente, como ela se sente principalmente momentos antes do ato de se mutilar. Procure também identificar alguém que possa ser um ponto de apoio para essa adolescente apesar do isolamento; primos, amigos, alguém de confiança que possa ajudá-la a falar sobre. Pode ser que aos poucos se torne possível a ajuda profissional. Oriente também a família nesse sentido, porque geralmente os pais ficam muito angustiados e o assunto se torna um tema de conflito e mais distanciamento em casa.

      Com carinho,

      Etiene e Flávia

  4. Paula marinho disse:

    Ola
    Tenho alunas que fazem isso.
    Gostaria de poder ajuda las

    1. Etiene Macedo disse:

      Olá tudo bem?

      A escola é um espaço privilegiado para conversar sobre temas como esse. Incluir temas transversais ao conteúdo didático, promover conversas em grupo pode ser uma forma de auxílio na escola, já que é difícil para professores atenderem alunos individualmente. Quando há equipe técnica de apoio para fazer esse trabalho na escola fica melhor ainda.

      Um abraço,
      Etiene e Flávia

  5. Sávio lima disse:

    Qual conselho eu devo dar para quem se alto mutila

    1. Etiene Macedo disse:

      Olá Sávio.
      A primeira coisa é escutar e acolher. Sem muita pressão e sem aqueles bons conselhos do tipo “você não precisa disso…”A pessoa que se automutila sabe disso, mas tem muita dificuldade de controlar o impulso de se machucar, quando é assolada pela dor, confusão e desespero.
      Se você é amigo ou familiar talvez seja necessário buscar ajuda profissional. É aconselhável pedir ajuda a alguém de confiança para um melhor andamento possível da situação. Ajuda médica e psicológica nesse momento podem ser necessárias também. Se você tiver mais dúvidas escreva para nós contato@plin.net.br

      Com carinho,

      Etiene e Flávia

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *