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Quando adultos interferem na brincadeira da criança

Quando adultos interferem na brincadeira da criança
por Etiene Macedo

Certo dia, ouvi uma mãe se queixar de que sua filha foi impedida pela tia de brincar de médico. Duas priminhas com cerca de 5 anos decidiram brincar de médico e a tia de uma delas veementemente impediu a brincadeira, alegando que brincar daquilo não era uma coisa legal. Uma das crianças, a que tomou a iniciativa para essa atividade, ficou visivelmente confusa, sem entender o que haveria de errado naquela brincadeira.

Brincar de médico para aquela criança era: colocar uma boneca embaixo da blusa e, em seguida, retirá-la, simulando um parto.  Dali em diante, a brincadeira traria elementos como cuidar, chorar, beijar, acarinhar.

Episódios como esse são comuns quando adultos observam e interferem nas brincadeiras das crianças mesmo quando têm a intenção de educar e cuidar. O que acontece é que tais interferências podem ser arbitrárias, descontextualizadas e invasivas. Por quê?

Porque a brincadeira é o espaço, por natureza, da aprendizagem e desenvolvimento da criança. É por meio de se transformar em outra pessoa, fazer coisas que simbolizam o mundo dos adultos que a criança se apropria da realidade e desenvolve sua identidade.

Na situação descrita, duas meninas queriam apenas representar como nascem os bebês e assim, compreender suas próprias origens, sua relação com cuidadores, nesse caso, as mães. Muito diferente do jargão “brincar de médico”, mal utilizado por adultos para descreverem as descobertas sexuais infantis.

A expressão “brincar de médico” geralmente remete às primeiras experiências com a sexualidade, envolvendo irmãos ou parentes próximos da mesma idade. O que é muito deferente de brincadeiras que efetivamente caracterizam a violência sexual, não é mesmo?

Bom, a sexualidade infantil é outro tema que falaremos em breve. Voltando ao sentido da brincadeira e da imaginação para criança, é importante destacar que a brincadeira livre e não estruturada pelo adulto tem o seu lugar. Brincando, a criança aprende a resolver conflitos intrapsíquicos e também com seus pares. Ela internaliza papéis e constrói de modo sofisticado e complexo diversos significados sobre as relações e coisas ao seu redor.

Aos 5 anos de idade, uma brincadeira de médico é muito diferente da iniciação à descoberta da sexualidade, que também é uma atividade normal.  Assim, o nome de qualquer brincadeira infantil se define não pelo rótulo que carrega, mas pelo clima emocional que envolve o contexto e as pessoas da brincadeira. Nesse exemplo, brincar de médico pode ter significado: nascer, cortar, tornar algo grande em pequeno ou ainda elaborar, entender a melhor a pergunta: de onde é que eu vim?

É muito importante observar, estar atento(a) às atividades das crianças, mas tão importante quanto, é deixá-las livres para construírem significados a partir dos objetos que as rodeiam. Observar antes de fazer qualquer interferência é o primeiro passo para ajudá-las nessa tarefa complexa de descobrir o mundo pela brincadeira.

Um abraço carinhoso

Etiene

Etiene Macedo Psicóloga com mestrado em Psicologia Clínica, doutorado em andamento em Psicologia Clínica (Unb). Especialista em Terapia de Casais e Famílias (PUCGO). Sócia e colunista do Plin.

2 comentários para “Quando adultos interferem na brincadeira da criança”

  1. Dan disse:

    Boa noite. Só estou escrevendo para dizer que gostei da matéria. Parabéns

    1. Flávia Lacerda disse:

      Oi, Dan! Que bom que você gostou! Toda sexta-feira postaremos um texto ou vídeo! Abraço, Etiene e Flávia.

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